Neurite óptica: cuidando do nervo da visão
A neurite óptica afeta a conexão entre o olho e o cérebro. Conheça as suas causas e veja como a avaliação médica é um passo decisivo no manejo da neurite óptica.
Com base nas perguntas mais comuns dos pacientes, esta seção foi criada para explicar, de forma clara, as causas, os sintomas e os tratamentos para a neurite óptica.
A neurite óptica é a inflamação do nervo óptico. A causa mais comum é a desmielinização, um processo autoimune no qual o sistema de defesa do corpo ataca a bainha de mielina, a capa protetora das fibras nervosas. Essa agressão interrompe a transmissão dos sinais visuais para o cérebro. A neurite óptica desmielinizante está fortemente associada à esclerose múltipla. Outras causas, menos comuns, incluem infecções (virais ou bacterianas), outras doenças autoimunes (como lúpus e sarcoidose) ou uma condição específica chamada neuromielite óptica. Em alguns casos, a causa não é identificada (idiopática).
Não sempre, mas frequentemente. Estima-se que a neurite óptica seja o primeiro sintoma a se manifestar em cerca de 20% das pessoas que desenvolverão esclerose múltipla (EM). E, ao longo da vida, cerca de 50% de todos os pacientes com EM terão pelo menos um episódio de neurite óptica. Por essa forte associação, um primeiro episódio de neurite é considerado um evento de alto risco para o desenvolvimento futuro de EM, o que justifica a investigação neurológica completa.
Sim. Uma neurite óptica pode ocorrer após uma infecção viral, como a gripe, o sarampo, a caxumba ou a catapora, ou após uma vacinação. Nesses casos, acredita-se que a inflamação não seja causada diretamente pelo vírus, mas sim por uma reação do sistema imunológico que, ao combater o vírus, acaba por atacar também a bainha de mielina do nervo óptico por um mecanismo de reação cruzada. Esse tipo de neurite é mais comum em crianças.
O estresse físico ou emocional não é uma causa direta de neurite óptica. No entanto, em pacientes que já têm uma doença desmielinizante como a esclerose múltipla, o estresse é frequentemente relatado como um possível gatilho para o surgimento de novos surtos inflamatórios, que podem se manifestar como uma neurite óptica ou com outros sintomas neurológicos. O estresse não cria a doença, mas pode influenciar na sua atividade em pessoas predispostas.
A neuromielite óptica (NMO), ou Doença de Devic, é outra doença autoimune e desmielinizante, mas que é diferente da esclerose múltipla. Na NMO, o sistema imunológico ataca especificamente uma proteína chamada aquaporina-4, que é muito presente no nervo óptico e na medula espinhal. A neurite óptica na NMO costuma ser mais grave, frequentemente bilateral e com uma recuperação visual pior do que na neurite associada à EM. O diagnóstico é feito com um exame de sangue específico que detecta o anticorpo anti-aquaporina-4.
É muito raro. Um tumor geralmente causa perda de visão por compressão lenta e progressiva do nervo óptico, e não por uma inflamação aguda. No entanto, em casos raros, a compressão crônica por um tumor pode levar a um inchaço do nervo que se parece com uma neurite, ou um processo inflamatório ao redor de um tumor (um fenômeno paraneoplásico) pode causar uma neurite. A ressonância magnética é fundamental para descartar qualquer lesão compressiva.
A neurite óptica em si não é uma doença hereditária. No entanto, a predisposição para as doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, que são a principal causa da neurite, tem um componente genético. Ter um parente de primeiro grau com esclerose múltipla aumenta ligeiramente o risco de desenvolver a doença. Existem também as neuropatias ópticas hereditárias, mas essas são doenças degenerativas do nervo, e não inflamatórias como a neurite.
Sim. O tabagismo é um fator de risco bem estabelecido para o desenvolvimento e a progressão da esclerose múltipla. Portanto, em um paciente que teve um episódio de neurite óptica, fumar aumenta o risco de ter novos surtos e de a doença neurológica progredir mais rapidamente. Parar de fumar é uma das medidas de estilo de vida mais importantes que um paciente pode tomar para melhorar seu prognóstico a longo prazo.
Pode, mas é menos comum em adultos. A neurite óptica típica, associada à esclerose múltipla, é geralmente unilateral, afetando um olho de cada vez (embora um segundo episódio possa ocorrer no outro olho no futuro). A neurite bilateral simultânea em um adulto levanta a suspeita de causas “atípicas”, como a neuromielite óptica (NMO) ou outras doenças inflamatórias sistêmicas. Em crianças, a ocorrência bilateral é um pouco mais frequente.
O termo “idiopática” significa que a causa da doença é desconhecida. Uma neurite óptica é classificada como idiopática quando, mesmo após uma investigação completa, incluindo a ressonância magnética e exames de sangue, não se encontra nenhuma associação com a esclerose múltipla ou com qualquer outra doença infecciosa ou inflamatória. A pessoa tem o episódio de inflamação no nervo, se recupera e não desenvolve nenhuma outra condição ao longo do tempo.
A tríade clássica de sintomas da neurite óptica é: a perda de visão, que geralmente é central e se desenvolve ao longo de alguns dias; a dor ao movimentar os olhos, que pode preceder a baixa de visão; e a discromatopsia, que é a alteração na percepção das cores, que parecem mais “desbotadas” ou “lavadas”. O grau de perda visual pode variar de um leve embaçamento a uma perda quase total da visão naquele olho.
A perda de visão na neurite óptica é considerada aguda ou subaguda. Ela não acontece de forma instantânea, como em um problema vascular, mas se desenvolve e piora progressivamente ao longo de várias horas a alguns dias, atingindo o seu pico geralmente dentro de uma a duas semanas. Após esse período de piora, a visão tende a se estabilizar e, então, começa a melhorar gradualmente.
A dor associada à neurite óptica é muito característica. Não é uma dor no olho em si, mas sim uma dor na parte de trás do olho (retrobulbar), que é descrita como um desconforto ou uma dor surda que piora significativamente quando se move os olhos. A dor pode ser leve a moderada e costuma durar apenas os primeiros dias do episódio, melhorando mesmo que a acuidade visual ainda esteja reduzida. A ausência completa de dor é considerada um sinal atípico.
A perda da saturação das cores é um sintoma muito comum e um sinal muito sensível de disfunção do nervo óptico. O paciente geralmente nota que as cores no olho afetado, especialmente o vermelho, parecem menos vivas, mais pálidas ou acinzentadas em comparação com a visão do olho normal. O médico pode testar isso pedindo para o paciente comparar a cor de um objeto vermelho com cada olho separadamente. Essa alteração pode ser o último sintoma a se recuperar completamente.
Sim, alguns pacientes com neurite óptica relatam a percepção de flashes de luz (fotopsias), que podem ser desencadeados pelo movimento dos olhos ou ocorrerem espontaneamente. São geralmente descritos como “luzes piscando” ou “pontos brilhantes”. Acredita-se que sejam causados pela irritação das fibras nervosas inflamadas. No entanto, os flashes não são um sintoma tão comum ou proeminente quanto a dor e a perda da visão de cores.
Pode ser ambos. A perda de visão pode ser percebida como um embaçamento geral, como se a pessoa estivesse olhando através de um vidro embaçado, ou como um escurecimento da visão, como se a intensidade da luz tivesse diminuído. O mais comum é a formação de um escotoma central, uma mancha cega ou borrada bem no centro da visão, o que dificulta muito a leitura e o reconhecimento de rostos.
Sim, e esse é um fenômeno muito interessante, chamado de fenômeno de Uhthoff. Pessoas que já tiveram um episódio de neurite óptica podem notar um embaçamento temporário da visão quando a temperatura do corpo aumenta, como durante um exercício físico, um banho quente ou em um dia de muito calor. Isso acontece porque o aumento da temperatura piora a condução dos impulsos elétricos através das fibras nervosas que já foram previamente danificadas pela desmielinização. A visão volta ao normal assim que a temperatura do corpo se normaliza.
Não. A neurite óptica é uma inflamação que ocorre na parte de trás do olho, no nervo óptico. A aparência externa do olho permanece completamente normal. Ele não fica vermelho nem apresenta secreção. A inflamação não é visível a olho nu. Se a perda de visão vier acompanhada de um olho vermelho e doloroso, outras causas, como uma uveíte ou um glaucoma agudo, devem ser consideradas.
Na forma típica do adulto, associada à esclerose múltipla, a neurite óptica é quase sempre unilateral, afetando apenas um olho por episódio. A ocorrência de neurite nos dois olhos ao mesmo tempo (bilateral simultânea) é rara em adultos e levanta a suspeita de outras causas, como a neuromielite óptica. Em crianças, a neurite bilateral é mais comum.
É muito raro que um episódio típico de neurite óptica desmielinizante cause cegueira permanente. O prognóstico para a recuperação da acuidade visual é muito bom na maioria dos pacientes. No entanto, em formas mais graves ou atípicas da doença, como na neuromielite óptica, o dano ao nervo pode ser mais severo e a recuperação visual pode ser incompleta, resultando em uma perda de visão residual significativa.
O prognóstico para a recuperação da visão na neurite óptica típica é geralmente excelente. A visão começa a melhorar espontaneamente em poucas semanas, e a maior parte da recuperação ocorre nos primeiros seis meses. Mais de 90% dos pacientes recuperam uma acuidade visual de 20/40 ou melhor. No entanto, mesmo com a recuperação da nitidez, algumas sequelas sutis podem permanecer, como uma leve alteração na percepção de contraste, na visão de cores ou o fenômeno de Uhthoff (piora com o calor).
Sim, a neurite óptica pode recorrer, seja no mesmo olho ou no olho contralateral. O risco de um novo episódio é maior em pacientes que desenvolvem esclerose múltipla. O tratamento da esclerose múltipla com medicamentos imunomoduladores tem como um de seus principais objetivos diminuir a frequência e a gravidade dos surtos inflamatórios, o que inclui a prevenção de novas crises de neurite óptica.
O diagnóstico da neurite óptica é, em grande parte, clínico, baseado na combinação dos sintomas típicos (baixa de visão, dor ao mover o olho, alteração de cores) e dos achados no exame oftalmológico (como o defeito pupilar aferente relativo). A ressonância magnética das órbitas pode confirmar a inflamação do nervo, mas o diagnóstico geralmente é feito antes mesmo do resultado do exame de imagem, que é mais importante para avaliar o prognóstico neurológico.
O exame de fundo de olho pode ter duas aparências. Em cerca de um terço dos casos, a inflamação afeta a cabeça do nervo óptico (a parte visível dentro do olho), e o médico observa um inchaço do disco óptico, um quadro chamado de papilite. Em dois terços dos casos, a inflamação ocorre na parte do nervo que fica atrás do olho (neurite retrobulbar). Nesses casos, o exame de fundo de olho pode ser completamente normal, o que originou a clássica frase: “nem o paciente nem o médico veem nada”.
O exame de campo visual é um teste funcional que mapeia a área de perda de visão. Ele é muito importante para documentar a extensão e o padrão do dano visual causado pela neurite. O defeito mais comum é um escotoma central (uma mancha cega no centro), mas outros padrões podem ocorrer. A repetição do exame ao longo do tempo permite quantificar objetivamente a recuperação da função do nervo óptico após o tratamento ou a resolução espontânea.
O tratamento da neurite óptica é uma colaboração entre o oftalmologista e o neurologista. O oftalmologista, de preferência um neuro-oftalmologista, é quem faz o diagnóstico do evento ocular, avalia a visão e acompanha a sua recuperação. O neurologista é o profissional que investiga a causa sistêmica, principalmente a esclerose múltipla, interpreta a ressonância magnética e institui o tratamento de longo prazo para a doença neurológica de base, se ela for diagnosticada.
Sim, o surgimento dos sintomas de neurite óptica é considerado uma urgência médica. Embora a recuperação visual seja geralmente boa, a avaliação imediata é fundamental por dois motivos. Primeiro, para confirmar o diagnóstico e descartar outras causas de perda de visão que podem ter tratamentos diferentes. Segundo, e mais importante, para iniciar a investigação da causa de base o mais rápido possível, pois a neurite pode ser o primeiro sinal de uma doença neurológica séria que precisa de tratamento.
A relação é muito forte. A esclerose múltipla (EM) é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico ataca a bainha de mielina no sistema nervoso central (cérebro, medula e nervos ópticos). A neurite óptica é, na verdade, um surto de EM que ocorre especificamente no nervo óptico. A presença de lesões desmielinizantes na ressonância magnética do cérebro no momento da neurite óptica é o fator de maior predição para o desenvolvimento de outros sintomas de EM no futuro.
Não, a neurite óptica não é contagiosa. Ela não é causada por um micro-organismo que possa ser transmitido de uma pessoa para outra. A forma mais comum é uma doença autoimune, uma inflamação interna do próprio corpo. Mesmo nos casos em que a neurite é desencadeada por um vírus, a inflamação em si é uma reação do sistema imunológico, e não a infecção viral direta, e não pode ser passada para outras pessoas.
Sim. Embora a acuidade visual (a capacidade de ler as letras na tabela) se recupere bem na maioria dos pacientes, algumas sequelas visuais mais sutis podem persistir. As mais comuns são uma leve diminuição na sensibilidade ao contraste (a visão pode parecer um pouco “lavada”), uma alteração permanente na visão de cores e o fenômeno de Uhthoff (embaçamento transitório com o calor). Além disso, após a inflamação, o nervo óptico pode ficar com uma aparência pálida no fundo de olho, indicando uma atrofia residual.
O tratamento padrão para um primeiro episódio de neurite óptica típica, com perda visual significativa, é a administração de altas doses de corticosteroide por via intravenosa (pulsoterapia com metilprednisolona), geralmente por 3 a 5 dias, seguida por um período de corticoide oral em doses decrescentes. O objetivo principal desse tratamento não é melhorar o resultado visual final, mas sim acelerar a velocidade da recuperação. Além disso, o tratamento da doença de base, se houver, é fundamental.
Não necessariamente. Um grande estudo clínico (ONTT) mostrou que, para a neurite óptica típica, a recuperação da visão a longo prazo é igualmente boa com ou sem o tratamento com corticoides. No entanto, o estudo também mostrou que o corticoide intravenoso acelera a recuperação visual. Portanto, o tratamento é geralmente oferecido para encurtar o período de baixa visão. O uso de corticoide apenas por via oral, em doses baixas, não é recomendado, pois foi associado a um maior risco de novas crises.
Sim, na maioria dos casos. Diferente de doenças degenerativas como o glaucoma, a neurite óptica é uma condição inflamatória, e o nervo óptico tem uma boa capacidade de se recuperar após o surto. A visão geralmente começa a melhorar dentro de poucas semanas, com ou sem tratamento, e continua a melhorar por vários meses. A grande maioria dos pacientes recupera uma visão funcional excelente, embora algumas alterações sutis possam persistir.
Não. A neurite óptica é uma condição inflamatória e, às vezes, autoimune, que é tratada clinicamente, com medicamentos. Não existe nenhum procedimento cirúrgico que possa tratar a inflamação do nervo óptico. A cirurgia não tem nenhum papel no manejo de um episódio agudo de neurite.
Sim, com certeza. Se a investigação após um episódio de neurite óptica leva ao diagnóstico de esclerose múltipla, o tratamento neurológico de longo prazo é fundamental. Hoje, existem diversos medicamentos imunomoduladores muito eficazes que, embora não curem a EM, conseguem diminuir significativamente a frequência e a gravidade dos surtos inflamatórios, retardando a progressão da doença e a incapacidade neurológica. O tratamento é conduzido pelo médico neurologista.
Sim. Como a neurite em crianças está menos associada à esclerose múltipla e mais a quadros pós-infecciosos, a abordagem pode ser diferente. A recuperação espontânea da visão também costuma ser muito boa. O uso de corticoides é decidido caso a caso, dependendo da gravidade da perda visual e se a condição é uni ou bilateral. A investigação para descartar outras causas também é muito importante.
Para as sequelas mais comuns, como a leve alteração de contraste ou de cores, não existe um tratamento específico. O paciente aprende a conviver com essas pequenas diferenças na visão. Para o fenômeno de Uhthoff, a orientação é evitar situações de superaquecimento do corpo. Em casos raros, nos quais a perda de visão é severa e permanente, a reabilitação visual com auxílios para baixa visão pode ser indicada para ajudar na adaptação.
Para a neurite óptica típica desmielinizante, a ausência de tratamento com corticoides geralmente não muda o resultado visual final; a recuperação apenas será mais lenta. No entanto, o mais importante é que não tratar significa não investigar a causa. Deixar de diagnosticar uma esclerose múltipla ou uma neuromielite óptica em seu estágio inicial significa perder a oportunidade de iniciar um tratamento de longo prazo que pode mudar o curso da doença e prevenir futuros surtos e incapacidades.
Não existe um tratamento para prevenir o primeiro episódio de neurite óptica em uma pessoa saudável. No entanto, para um paciente que já tem o diagnóstico de esclerose múltipla ou de neuromielite óptica, o tratamento contínuo e específico para essas doenças tem como um de seus principais objetivos prevenir a ocorrência de novos surtos inflamatórios, o que inclui novos episódios de neurite óptica.
Sim. A dor ao movimentar os olhos é um sintoma da fase inflamatória aguda. Ela geralmente dura apenas os primeiros dias do episódio, de uma a duas semanas no máximo. A dor costuma melhorar e desaparecer espontaneamente, mesmo que a visão ainda não tenha começado a se recuperar. O tratamento com corticoides também ajuda a aliviar a dor de forma mais rápida, devido à sua potente ação anti-inflamatória.
A conjuntivite é a inflamação da conjuntiva, causando vermelhidão e secreção. Pode ser viral, bacteriana ou alérgica, com tratamentos específicos para cada tipo.
O terçol é uma infecção bacteriana aguda na pálpebra, que causa um nódulo vermelho e dolorido. Geralmente melhora com compressas mornas e boa higiene.
O astigmatismo é um erro de foco causado pela curvatura irregular do olho, que torna a visão distorcida. Pode ser corrigido com óculos, lentes ou cirurgia.
A oftalmologia cirúrgica utiliza microcirurgia e alta tecnologia para tratar doenças como catarata e glaucoma, oferecendo procedimentos seguros e de rápida recuperação.
O glaucoma é uma doença crônica e silenciosa que danifica o nervo óptico. O diagnóstico precoce e o tratamento contínuo são cruciais para preservar a visão.
O ceratocone é uma doença que deforma a córnea, afinando-a e causando astigmatismo. O tratamento visa parar a progressão e melhorar a visão.